Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A corrida de bicicletas

Passado o inverno começam as corridas de bicicletas. Mas uma está em curso há já uns anos. Nela, há algum tempo atrás vinham os ciclistas a subir a montanha. Uns “trepadores” à frente, depois estendia-se o pelotão, mas todos progredindo com custo, naturalmente mais devagar do que tinham rolado antes na planície. Para trás do pelotão, quatro atletas começaram a arrastar-se até tenderem a cair para a berma. Num último fôlego gritaram por socorro. Os diretores das outras equipas disseram “Solidariamente, não podemos abandoná-los”, enquanto pensavam que sem concorrentes suficientes nem haveria prova para eles ganharem. Pelo que mandaram os seus carros irem rebocá-los até perto do cume da montanha. Quando lá chegaram, o candidato a diretor de uma destas equipas atrasadas inchou o peito e bradou “Não chega! Vocês têm é que pôr o nosso ciclista ao nível de todos por igual!” Os outros diretores nem lhe responderam. Mas o povo da vila que se fazia representar por essa equipa gostou da voz grossa,…
Mensagens recentes

Da moralidade das caravelas… à necessidade de um Museu das Descobertas

A aproximar-se mais um 10 de junho, e com o levante que por aí vai pelo projeto de um museu das Descobertas, tomemos eticamente o caso das caravelas portuguesas. Perguntando-nos se em si mesmas, e com elas os respetivos designers e construtores, merecem a aprovação moral tanto dos europeus e suas extensões civilizacionais, quanto daqueles que para disso participarem enfrentam hoje a morte no Saara e Mediterrâneo, ou a caminho da fronteira entre o México e os EUA. Ou se merecem a condenação moral, por terem servido para transportar escravos, atacar povoações… Ou se ainda, como diria o sr. Lazar, caravelas não constroem globalizações, as mãos é que puxam as adriças e seguram a roda de leme, na escolha de transportar café ou escravos. Só os usos das caravelas terão sentidos morais Pela minha parte, fui apresentado a essa terceira tese – da neutralidade moral da tecnologia – pela resposta do referido armeiro: “Mr. Bond, as balas não matam. É o dedo que puxa o gatilho” (O Homem da Pistola Do…

O regresso de três velhíssimas questões

Vendo bem as coisas, neste fim da segunda década do séc. XXI fará sentido assinalar o dia do trabalhador a 1 de maio, e não a 12 de abril. Mas em qualquer caso, para entrarmos com os olhos abertos na terceira década deste século, teremos de os voltar para o séc. IV a.C. A revolta ludita Pois, de um lado, assinala-se hoje a grande manifestação de 1886 em Chicago, reivindicando a redução da jornada de trabalho para 8h. Redução?! Nestes tempos em que se precipitam notícias de máquinas – quer dizer, de coisas que desenvolvem, ou que se sucedem a outras que chamávamos “máquinas” – que a cada ano superam as expetativas do ano anterior sobre as suas próximas capacidades de reunião e tratamento de informação, de tomada de decisão, e até de geração por essas "máquinas" de comportamentos adequados com base em dados para cuja interpretação elas não recebem regras, ou seja, capacidade de “aprendizagem” nessa adequação, o que se perspetiva é a extinção de muitos postos de trabalho humano. O…

“Falando em corrupção… malefícios evitáveis?”

Pouco assisti à investigação da SIC sobre (a alegada) corrupção entre o Sr. Ricardo Salgado, de um lado, e os Srs. José Sócrates, Manuel Pinho, Zeinal Bava… do outro lado. Mas o caso parece cheio daqueles episódios em que a realidade ultrapassa a ficção. A ficção rasca. E como tal, confesso, acaba por me interessar mais ir seguindo o FCP. Todavia, no futebol, lá vem o Benfica e a operação e-toupeira. Levanto os olhos aos céus… e logo tem de passar um avião na rota de Lisboa, onde me lembro que viajará o Sr. Carlos César, ou a D. Berta Cabral, que mal aterrarem irão receber o (legalíssimo) reembolso por essa viagem apesar de ter sido a Assembleia da República a pagá-la, isto é, o leitor e eu. Tal como aliás somos nós quem paga os reembolsos. Não há como fugir à coisa. Em especial a 25 de abril. Pelo que trago a estas páginas o seu livro que um antigo colega de faculdade teve recentemente a amabilidade de me enviar: Sociedade e Estado em Construção: Desafios do Direito e da Democracia em A…

"É natural?"

Tomemos o exemplo do trigo. A sua domesticação, há pouco mais de uma dezena de milhares de anos, é um dos marcos da maior revolução – o Neolítico – por que o Homo Sapiens passou nos 300 mil anos que a nossa espécie leva. Com efeito, o trigo selvagem – que se reproduz por si mesmo, ou seja, “naturalmente” – espalha em volta os grãos que assim não são facilmente recolhidos. Para os aproveitar, numa agricultura que requereu a sedentarização e lançou a civilização humana, foi preciso intervir intencionalmente – “artificialmente” – numa seleção dos espécimes cujas espigas, por defeito natural, preservassem os grãos, para fazer a planta reproduzir-se então mediante a ação humana. Pela qual depois, mediante artefactos para isso criados, fosse feita a colheita, e a moagem por meio de outros artefactos, o acondicionamento e transporte da farinha em outros artefactos ainda… mediante organizações do trabalho para esse fim também criadas, etc. Mesmo sem chegar aos atuais cereais transgénicos, “é n…

O comércio global e os “teoristas de sociedades impossíveis”

Cumpriram-se nesta semana 92 anos sobre a publicação de um dos contributos do (julgo) maior intelectual português de sempre – aliás, o único nos nossos nove séculos que merecerá destaque mundial – a favor do liberalismo económico: o artigo “A evolução do comércio”, publicado por Fernando Pessoa no Nº 3 da Revista de Comércio e Contabilidade, Lisboa, em 25/03/1926. Cuja evocação abro com uma citação dedicada aos altermundialistas de hoje, aos socialistas do Bloco de Esquerda, PCP, e PS+D’s que com eles geringonçam, mas igualmente aos conservadores que rejubilam desde o brexit às promessas de Trump: “A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja hoje pelos teoristas de sociedades impossíveis, é contudo um dos dois característicos distintivos das sociedades chamadas civilizadas”. Pessoa, que desenvolveu a sua carreira profissional precisamente no setor comercial, reconheceu a cultura como o outro traço distintivo da civilização. Entre os quais, argumenta, se estabelece tan…

Da liberdade – eutanásia; política económica

Esta semana o presidente do Governo Regional e o seu secretário das finanças anunciaram uma viragem liberal numa importante dimensão da política económica açoriana. Palmas! Mas também não quero deixar de participar aqui na discussão em curso sobre a eutanásia, e a minha próxima vinda a esta Coluna poderá ser tardia para isso. Divido-me então, mas first things first. 1.A questão política da eutanásia, e uma sua resposta liberal – Tomemos o caso (real) de uma jovem italiana que desenvolveu uma personalidade eminentemente prática e desportiva, até que na casa dos 20 anos sofreu um acidente de ski e ficou tetraplégica. Não tendo conseguido esboçar um outro projeto de vida, muitos anos depois pediu a morte ao pai. E este acabou por pedi-la às autoridades que teriam competência na matéria. Duas perguntas se formulam aqui. De um lado: devo eu, uma vez posto/a numa situação como aquela, considerar que já tirei o partido que pude da vida, e que não faz sentido prolongar o sofrimento …