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Mensagens

A mostrar mensagens de 2016

Para o novo ano, faço votos (desesperançados…) pelo regresso aos anos velhos

Segundo os Dicionários Oxford, a palavra que caraterizou o último ano foi “pós-verdade”. Um adjetivo que significa “relating to or denoting circumstances in which objective facts are less influential in shaping public opinion than appeals to emotion and personal belief” (The Guardian, 15/11/2016). Em Portugal, para designarem os discursos que assim “moldam a opinião pública”, algumas cliques bem-pensantes tinham já adotado em força o substantivo “narrativa”.

"Realidade", "realidade", "realidade"...

O que me relembra o seguinte caso histórico, que descobri numa das minhas solitárias explorações juvenis dos livros esquecidos numa estante na falsa da casa que fora dos meus avós (o tempo, e o mundo, ficavam-me suspensos como os grãos de pó que oscilavam lentamente na faixa de luz doirada que entrava pela janela de uma guarita no telhado…), e de onde muitos anos depois parti numa argumentação sobre a realidade – base de quaisquer “objective facts”: “Em março de 1…

Ano de natal

O dia mais pequeno do ano é o do solstício de inverno, que ora calha a 21 ora a 22 de dezembro. Mas só por ilusão de ótica se dirá que o terceiro ou quarto dia a seguir, em conformidade, é um dos mais pequenos. Antes se estende para trás, quando quem o vive tiver cuidado de quem partilhe consigo este dia – qual jardineiro cuidando das plantas do seu jardim. Estende-se até todas as vezes em que deu atenção à palavra ou ao gesto da mulher, e assim agora sabe que perfume ela gostará de receber. Estende-se por todo o tempo em que apoiou o filho na caminhada para a faculdade, incluindo o pagamento de explicações e propinas, quando agora lhe sobra apenas um presente para este filho, além de o abraçar com orgulho. Tal como, ao desejar boas festas a alguns amigos, estes votos o estendem até quando se alegrou com o sucesso de um, e principalmente até ao período em que se manteve junto do outro então caído no lado errado da fortuna. Mas também quando os amigos lhe retribuem os votos, especialm…

Pelo natal, quero resposta ao maior enigma particular da ciência moderna

Foi na sacristia de uma igreja que fui confrontado com essa questão, e a aparente desapropriação do local creio que ainda me a tornou mais enigmática: há anos – demasiados, considerando que quase nada avancei nela desde que me foi colocada! – passei pela Igreja do Campo Grande, em Lisboa (onde vivia na altura), para me encontrar com o Pe. João Resina Rodrigues, ilustre professor de física do Instituto Superior Técnico e doutorado em filosofia. Ele iria emprestar-me um livro que acabara de receber sobre o espaço e o tempo. E ao entregar-mo, no sossego da sua sacristia, com um leve sorriso me pareceu que entre divertido pela confusão que deveria provocar, e a inspeção da perceção do alcance das suas palavras, perguntou: como é possível que os nossos cálculos matemáticos se apliquem à Natureza?

Enigma na sacristia...

Esta questão é provavelmente a mais crucial, mas também a mais intratável, de entre todas as que se colocam às ciências modernas. Condicionando desde algumas metodologias cien…

Populismo... e avaliação civilizacional do Ocidente (e dos EUA, diretos desde o "Yes we can" às promessas de Trump)

Exemplo de obra clássica

Cada homem passa. Alguns são génios - são os que criam obras clássicas. Estas não passam. E cada uma é única, apesar de todas elas convergirem aproximadamente para as mesmas duas ou três ideias.

Facebook, Snapchat... e as relações simétricas entre tecnologia e sociedade

Na semana da Web Summit o tema impõe-se: que relações se estabelecem entre a tecnologia e a sociedade? Reflitamos sobre a eventual experiência de uma leitora que esteja a ler estas palavras no seu smartphone, intercalando com uns saltos ao facebook, enquanto espera na sala de embarque de um aeroporto rumo a Lisboa.

A geração Y, a geração Z, e a geração silenciosa

Porventura terá escolhido os voos de ida e volta numa aplicação desse aparelho que lhos tenha selecionado segundo preços, horários e escalas. Assim como o local de alojamento em Lisboa, e porventura o carro alugado. Tendo ela não só nessa altura marcado e pago tudo isso também com o smartphone, como o terá utilizado ontem para fazer o check-in em casa enquanto jantava, trazendo o cartão de embarque digitalizado para ser lido oticamente nos controlos do aeroporto. Enfim, antes de responder à chamada para o embarque, essa leitora poderá fazer um breve comentário a esta crónica naquela rede social. E enquanto muda o smartphone para…

"Os Últimos Dias da Humanidade" - A raiz desse fim na própria obra de K. Kraus

Faz hoje exactamente 1 semana que o Teatro Nacional São João apresentou a Parte III ("A Última Noite") da 1ª encenação em Portugal da peça Os Últimos Dias da Humanidade, do dramaturgo austríaco Karl Kraus - sobre a vertigem europeia entre o espoletar da Grande Guerra e o prenúncio dos novos tempos após esta última.
A 1ª parte do espetáculo é composta por uma sucessão de pequenas cenas, praticamente sem ordem narrativa nem interligação lógica. Cada uma delas apresenta uma situação pontual - desde um diálogo entre uma dona de casa alemã e outra austríaca (impérios aliados na I G.M.), até uma reunião de psiquiatras para diagnosticarem um refractário à guerra... atravessados por passagens de ardinas anunciando as últimas notícias da frente. Quais peças soltas de um grande mosaico cujos contornos se vão assim paulatinamente precisando ante o espectador.
A 2ª parte fica marcada pela sucessão de meia dúzia de monólogos denunciando, e mesmo teorizando as raízes perversas da guerra -…

Nobel 2016: uma janela sobre a ciência e a Natureza modernas

Também poderíamos tomar o recente prémio Nobel que distinguiu o isolamento de um estado da Natureza que… não é natural (o plasma), e as expetativas computacionais (quânticas) que isso faculta. Ou até outro destes últimos Nobel que promete avanços nos combates ao cancro, alzheimer… na base de estudos apenas sobre fungos (leveduras). Mas, para reentreabrirmos a janela sobre caraterísticas das ciências modernas que entreabrimos aqui em junho passado na efeméride secular de um artigo de Einstein, tomemos apenas o prémio Nobel de química 2016. Para o que aos leigos como eu convém começar por recordar o 3º ciclo do ensino básico: chama-se “molécula” ao elemento mais pequeno da matéria que ainda apresente as propriedades que distinguem cada substância (água, hélio…). Em regra esta identidade qualitativa, ou os comportamentos próprios da substância, depende, de um lado, dos tipos de átomos que compõem a molécula (chama-se “átomo” à unidade mais pequena que se encontra espontaneamente na Nature…

Filosofia (metafísica) vs. história vs. entretenimento (...vs. parasitismo)

O que é a filosofia?
Uma disciplina autónoma? Um mero entretenimento? Ou - entre essas duas possibilidades - um dos momentos (não autónomos) de qualquer processo que produz (assim sem a inconsequencialidade lúdica) conhecimento?
Particularmente em relação à metafísica, J. Wilson argumenta a favor desta 3ª hipótese. Fiz aproximadamente o mesmo uns anos antes em relação à filosofia em geral (mas reportando-me particularmente a questões metafísicas).
Daí no entanto decorrerá que o leigo têm razão em relação a grande parte do que tem recebido o rótulo "filosofia"...

"... it is possible to identify, in contemporary metaphysical practice and theorising, certain operative conceptions of metaphysics that are individual enough to allow for a reasonable assessment of whether they have the resources for defending metaphysics as a non-redundant and intelligible discipline. Here I'll focus on two, or maybe two-and-a-half.
The first approach is what I call the 'hands-off'…

Rufina - recensão

10 DE OUTUBRO DE 2016
Rufina, Dona Rufina de Melo Tavares Rufina é uma bela e contagiante história de tantas e tantas mulheres destas ilhas repletas de partidas e regressos, muitíssimo bem contada e adjetivada pelo Miguel Soares de Albergaria. Como o próprio diz, entre a realidade e a ficção, Rufina, chegada à ilha aos 25 anos de idade vai contando a história e caracterizando a sociedade micaelense que encontrou num espaço temporal  de meio século na transição de XIX para XX. Francisco Luís Tavares, politico, advogado, Juiz, pensador é o personagem principal deste romance que começa com uma sua carta dirigida à mãe pedindo-lhe ajuizados conselhos na questão da greve académica de 1907 e termina com a avisada resposta dessa mulher “que soube construir uma vida como a sua”.
Rufina, Srª D. Rufina de Mel(l)o Tavares, sobrevivente de uma de tantas casas de desvalidos, uma dessas grandes “latrina onde a sociedade escondia as sobras” é um hino à perseverança, uma apologia do trabalho, uma ode …

Notas literárias - narrativa, referência, interpretação

1. "...como obra de ficção que é, em Rufina não se encontram justificações dessa ou de qualquer outra tese geral. O que, diretamente, aí se encontra é a narrativa desde o dilema do filho, à recordação da chegada a S. Miguel em noite de tempestade, com desembarque por isso na pequena baía de Capelas a 8 de dezembro de 1880, do hospício em Olinda, do percurso dessa família após a bancarrota portuguesa de 1892…
Através dessas descrições descobre-se o mundo em que estas são relevantes. Isto é, o conjunto articulado de quaisquer escolhas, emoções, atos, laços sociais, acontecimentos… que melhor se poderá relacionar aos que ali são narrados, e do qual, portanto, esta obra será representativa. Os mundos literários são, julgo, a referência última das narrativas, mesmo que de ficções históricas como esta. Mas é a cada leitor que cabe, além de reunir os sucessivos passos da narrativa numa mesma história, descobrir, ou projetar imaginativamente um mundo da obra. Para, enfim, se dispor o leit…