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Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

A “segunda era da máquina” e os açorianos (I)

Os jovens que hoje editam digitalmente apresentações de excursões e passeios por esta ilha não se lembram. Mas nós da geração acima temos ainda a imagem das estradas regionais, ao cair da tarde, cruzadas por homens a cavalo sobre albardas com uma ou duas bilhas de leite ao lado. Ou em carroças, quando o número das bilhas aumentava para três ou quatro. E por camiões-cisterna que transportavam para as fábricas o leite reunido nos postos espalhados pela ilha. Enquanto um pouco antes, à tarde como de manhãzinha, onde houvesse umas dezenas de vacas havia meia dúzia de trabalhadores a ordenhá-las. Depois vieram as ordenhas mecânicas, os jipes… E os ajuntamentos de trabalhadores passaram para as grandes obras, fossem públicas fossem prédios de apartamentos (além já dos serviços). A produção de leite até aumentara. Mas agora bastava um par de trabalhadores por lavoura comum. Em menos tempo do que dura a vida profissional de um homem, porém, ficaram construídos os portos e aeroportos, os hospita…

"Economia planificada e aumento das desigualdades"

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A planificação da nossa economia faz-se, não através de planos quinquenais, mas de um plano de médio prazo, aprovado em sede do Parlamento Regional, mas sobretudo através de um sistema de incentivos ao investimento e à perda de rendimento dos agentes económicos de alguns setores que perverte por completo a atividade económica e potencia o aumento das desigualdades. Um sistema de incentivos que deixa de fora, deliberadamente e por decreto,  os pequenos investidores, os self-made-men e aqueles que não têm capital, ostraciza e marginaliza uma faixa muito grande da sociedade. Mas a grande perversão nem está nesse facto.  A grande contradição deste socialismo regulador e regulamentador, deste estado burocrático, deste Estado Administrativo como apelidei num artigo passado recente, em que vivemos é que ele está funcionar como um Robin dos Bosques mas em sentido inverso ao verdadeiro homem de Sherwood. Na verdade, quem financia esse suposto crescimento económico e esse logro públic…

Açores a caminho do resgate financeiro?

Graças ao Dr. Ricardo Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Vila Franca, aqueles de nós que não estamos por dentro dos meandros político-económicos regionais ficamos a saber que o Relatório e Contas da Musami, de 2016, alerta para que “a permanente política de limite financeiro [na região autónoma dos Açores] está a conduzir as contas da região para uma situação de resgate, com uma dívida sempre crescente e com muitos mecanismos de endividamento ativos, através de empresas deficitárias e organismos com autonomia financeira totalmente dependentes do orçamento regional” (p. 25). Em boa hora o conhecido político nos chamou a atenção para isto. Já se a forma como o fez foi igualmente boa – leia-se “democrática” – ao ter promovido um inquérito a quem terá tido a responsabilidade – preferirá o Sr. presidente o termo “desplante”?… – de um tal diagnóstico económico, deixaremos aqui para outra oportunidade. Falando por mim, nem sabia que dispomos online de tais avaliações da nossa conjunt…

“Pessoa” – entre fervura e água fria

Numa pequena entrevista em maio à revista literária digital Novos Livros, voltei a assumir o meu compromisso com “a concepção do ser humano como pessoa – isto é, como um ser que se constrói mediante as suas escolhas – não como absolutamente determinado por um fator inato e/ou outros adquiridos.” De regresso a este âmbito da integração sociocultural das ciências, porém, logo me vejo obrigado a deitar, naquela fervura literária, alguma água fria das neurociências.
A redução da mente ao cérebro
Com efeito, intimamente experimentamo-nos como livres. Por exemplo, eu experimento esta minha escrita destas palavras como resultado de uma minha decisão livre de as escrever; o leitor experimenta a sua leitura delas como resultado da sua decisão livre de ter começado a lê-las e ainda continuar, etc. Entretanto, há muito se tornou um lugar-comum que tais experiências mentais não ocorrem fora dos cérebros de cada um. E é aqui que começam os problemas – como logo reconheceu o grande filósofo e grande m…

"Hayek, Hayek, esse diabo!"

"...o liberalismo, ou a sua aceção mais comum, corresponde a uma ideia das funções do Estado e dos seus limites de atuação que nos garantam proteção quer em relação ao chamado estado absoluto assim como em relação ao denominado estado social ou estado providência."

v. texto integral: Nuno Almeida e Sousa, Diário de Açores, 09/06/2017

'Condições do Atraso do Povo Português' - entrevista a 'Novos Livros'

1- De que trata este seu livro Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos? R- Primeiro, e como infelizmente não é difícil, reconhece um crónico atraso sócio-económico de Portugal (pelo menos) desde o advento da economia industrializada, da urbanização da sociedade… por comparação aos nossos pares europeus. Segundo, equaciona esse problema radicalmente na nossa cultura, como base do estabelecimento e implementação das instituições sociais, políticas e económicas com as quais nos temos organizado. Terceiro, refuta empírica e logicamente o diagnóstico de Antero de Quental, uma vez deslocado dos séc. XVI-XIX para desde este último até à década passada (ou mesmo no período considerado pelo meu ilustre conterrâneo) – que as “causas” (“da decadência dos povos peninsulares”) seriam o catolicismo de Trento, um consequente autoritarismo político, e enfim uma cultura económica orientada para a conquista e não para a indústria e comércio. Quarto, para propor então uma hipótese …

“Facista”, “Comuna”, “Neoliberal”!

Quando eu era novo, nesta ilha, se por exemplo um indivíduo estacionasse o carro à frente da garagem de outro, e este lhe dissesse para o tirar pois precisava de se servir dessa entrada, um dos impropérios que se poderia ouvir do infrator era “A rua é de todos… facista!”. O mesmo “facismo” que levava esse dono da casa a queixar-se de lhe terem garatujado umas palavras na parede que recentemente pintara de branco, ou o vendedor de gravatas a não baixar os preços enquanto houvesse quem os pagasse, o professor a não aceitar resoluções de equações do 3º grau mediante a fórmula do 2º grau… Os cientistas políticos não convergem numa definição exata de “fascismo”. Em todo o caso, associam-lhe traços como antirracionalismo; defesa da luta pela qual sobrevivem os mais fortes; elitismo destes sob a orientação de um líder autoritário que corporiza a nação; afinidade pelas políticas socialistas relativas às baixas classes socioeconómicas, e ao intervencionismo económico do governo. O leitor concor…

'Rufina' - entrevista a 'Novos Livros'

Miguel Soares de Albergaria | Rufina 1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro Rufina? R- Reforça a concepção do ser humano como pessoa – isto é, como um ser que se constrói mediante as suas escolhas – não como absolutamente determinado por um factor inato e/ou outros adquiridos. Mas num processo que apenas se cumpre se respeitar um sentido (não subjectivo) da vida humana: o da dedicação de cada uma destas a alguma(s) obra(s) consistente(s) que ultrapasse(m) essa vida que se lhes vota. Teorias da relatividade, Capela Sistina, chefia do governo britânico durante a II G.M.... No caso da mulher real que foi M. Rufina Melo Tavares, na sua terrível circunstância familiar e económica, a obra foi a criação e educação do filho para que este viesse a constituir-se num homem autónomo e igualmente construtivo ou generoso. Este livro representa assim também um reconhecimento da extraordinariedade de todas essas pessoas anónimas que, sem qualquer expectativa de recompensa ou sequer cons…

“A comunidade científica em tempos de disputa”

Vacinação ou não das crianças, e construção ou não de uma incineradora em S. Miguel – A comparação entre estas atuais disputas sócio-tecno-científicas desde logo nos faculta assinalar os (já!) 20 anos daquela que talvez seja a mais importante ação de promoção da cultura científica até hoje ocorrida em Portugal. Que mais não fosse por isto, valeria a pena abordar aqui aquelas disputas. Refiro-me ao ciclo de conferências “A ciência tal qual se faz”, que decorreu entre outubro de 1996 e janeiro de 1998 na Fundação Calouste Gulbenkian, em mais uma iniciativa do ministro José Mariano Gago, sob coordenação do filósofo Fernando Gil. E, concretamente, à comunicação que o sociólogo da ciência Harry M. Collins ali apresentou, sob o título que importei para esta crónica. Mas aquela comparação, além de comemorar a efeméride, creio que nos sugerirá ainda um desenvolvimento do esquema de Collins. O qual – pelo menos até 2010 – bem se aplicou à disputa entre os defensores e os oponentes da vacinação in…

"Limites entre o Estado e o indivíduo"

"Neste meu primeiro artigo desta Coluna Liberal que escreverei a quatro mãos com o meu amigo Miguel Soares de Albergaria, tentarei de uma forma breve e clara explicar ao que vimos, porque vimos e como vimos. Na verdade, a ideia desta coluna escrita a dois nasceu do Miguel e tem como objetivo clarificar e formar os leitores mais desatentos para as vantagens de uma sociedade liberal. Com recurso a exemplos e ao conhecimento filosófico tentarei, como melhor souber e possa, esclarecer os leitores acerca dessas vantagens e se o não conseguir espero que, pelo menos nos espíritos mais críticos, fiquem lançadas sementes de curiosidade."



continua: Nuno B. Almeida e Sousa, "Limites entre o Estado e o indivíduo", Coluna Liberal in Diário dos Açores, 12/05/2017

Movimento perfeito

A tensão que se resolve, sem nunca se diluir, A harmonia que dura, apesar de sem regra nem repetição

Cª Luis Bravo, "Forever Tango" (Coliseu do Porto, 9/5/2017)

Inovação, crescimento, e sociedade açoriana

As teorias do crescimento económico, depois de lhe reconhecerem como fatores o trabalho e o capital, também reconheceram como tais, de um lado, as inovações tecnocientíficas (R. Solow…), de gestão… e do outro, as instituições (ex. patentes, direitos de autor) que devem ser elas próprias inovadas de forma a promoverem e protegerem aquela outra inovação em geral (D. North…). No contexto açoriano, este jornal – por cujo aniversário hoje estamos todos (mas primeiro os seus responsáveis e profissionais) de parabéns! – diversas vezes me abriu as suas páginas para abordar inovações tecnológicas, até científicas, e eventualmente institucionais, algumas das quais relevantíssimas para a economia e a sociedade desta ilha, e do arquipélago, outras que poderão ter tido aqui, ou talvez possam a vir ter, algum impacto positivo. Foi o caso de “A modernização da indústria de laticínios em S. Miguel – 1937-1946” – se não me falha a memória, precisamente neste suplemento pelo aniversário de há dois anos (…

Tecnocracia, retórica, e o caso das duas biólogas

Das decisões sobre as construções em S. Miguel desde uma incineradora à de um oceanário, passando por prescrições médicas, políticas fiscais, etc., etc., dizem os “tecnocráticos”: entreguemo-las aos respetivos especialistas, que eles sabem – segundo os conhecimentos disponíveis hoje – qual será a melhor solução. Nenhuma aldrabice retórica é maior do que essa tecnocracia. E, precisamente, apenas o seu reconhecimento pode salvar a relativa objetividade que é possível à tecnologia e à ciência. Assim como aos debates públicos sobre questões como as referidas construções projetadas para esta ilha.
As ciências e as tecnologias tal qual são feitas
Com efeito, imaginemos duas biólogas num laboratório, com um microscópio, e, na lâmina deste, uma amostra daquilo que chamamos “bactérias”. O que é que essas investigadoras vêem ao olhar pelas lentes oculares? Bactérias? Obviamente que não! O que vêem – nunca percamos a filiação a La Palisse! – são formas arredondadas, ou cilíndricas… movendo-se ao lo…