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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2017

Tecnocracia, retórica, e o caso das duas biólogas

Das decisões sobre as construções em S. Miguel desde uma incineradora à de um oceanário, passando por prescrições médicas, políticas fiscais, etc., etc., dizem os “tecnocráticos”: entreguemo-las aos respetivos especialistas, que eles sabem – segundo os conhecimentos disponíveis hoje – qual será a melhor solução. Nenhuma aldrabice retórica é maior do que essa tecnocracia. E, precisamente, apenas o seu reconhecimento pode salvar a relativa objetividade que é possível à tecnologia e à ciência. Assim como aos debates públicos sobre questões como as referidas construções projetadas para esta ilha.
As ciências e as tecnologias tal qual são feitas
Com efeito, imaginemos duas biólogas num laboratório, com um microscópio, e, na lâmina deste, uma amostra daquilo que chamamos “bactérias”. O que é que essas investigadoras vêem ao olhar pelas lentes oculares? Bactérias? Obviamente que não! O que vêem – nunca percamos a filiação a La Palisse! – são formas arredondadas, ou cilíndricas… movendo-se ao lo…

A sala que só tinha largura, e um novo partido em Portugal

Imagine o leitor que vai a casa de alguém, e que na sala de estar encontra o sofá encostado a uma parede; ao lado, junto à mesma parede, está uma pequena mesa; e ainda ao lado nessa parede, um televisor no chão. Os três objetos virados para o resto da sala, vazio. Não resistindo à curiosidade, pergunta ao anfitrião: Porque é que não pões o televisor em cima da mesa, e o sofá à frente de ambos? Como é que isso é possível – diz ele perplexo – se ao longo do rodapé daquela parede apenas tenho lugares ao lado uns dos outros? Mas qual é a corrente que te prende apenas à largura da sala?! – exclama o leitor – Basta que a essa dimensão acrescentes a da altura, e já contas com as posições em-cima-de, ou por-baixo-de. Acrescenta ainda a da profundidade, e logo surge a posição à-frente-de. Os portugueses têm estado com os partidos políticos, desde 1974, aproximadamente como o dono dessa casa com os seus móveis. Assim, uns dizem: vota em mim, que eu é que sei a melhor maneira para ti de gastarmos me…

A condição económica portuguesa e a dívida externa (nem tanto a pública)

Aliás, podemos fazer um exercício útil para perceber melhor a raiz dos problemas. Primeiro, calcular o défice médio que vigorou de 2000 a 2007. De seguida, compará-lo com a performance económica registada no período subsequente (e que, neste caso, é dada pela diferença entre a taxa média de crescimento do PIB entre 2008 e 2014 e a taxa média de crescimento do PIB entre 2001 e 2007). Não há grande relação entre as duas. Mas e se trocarmos o défice público pelo défice externo? Bom, já estamos a chegar a algum lado. Deixem-me saltar os detalhes e avançar directamente para a explicação canónica desta imagem: ela representa uma crise típica de balança de pagamentos. O problema não foi o endividamento do Estado, mas o endividamento de toda a economia. Depois de vários anos a conceder empréstimos a custo quase nulo, os mercados abriram os olhos, apertaram as condições de crédito e forçaram um enorme credit crunch. in: Pedro Romano, "Dívida pública e dívida externa e o artigo de Vítor Ben…

A Estrutura da Realidade (1)

Cada pessoa crê no que quer que lhe faça sentido, ou verifica-se algo a que devemos chamar “realidade”?No segundo caso, dispomos apenas de uma sua conceção, ou são possíveis mais do que uma – neste caso, quais são as alternativas?Como se escolhe entre as conceções da realidade?Que conceção geral devemos então assumir (ou que hierarquia entre conceções diversas mas não mutuamente exclusivas)?Enfim, em particular, qual é a conceção apropriada do ser humano nesse quadro geral? A cada uma dessas 5 perguntas ensaio o argumento de uma resposta respetivamente nas 5 partes de um conjunto que me parece ficar bem intitulado pela expressão "A estrutura da realidade".

O cap. 1 - com uma resposta à 1ª pergunta - foi publicado aqui em 2011.
Resumo: "Neste texto reconhece-se o problema do estabelecimento do que há a partir de um choque entre dois mundos culturais. Nessa base, distinguem-se planos em que o problema se coloca, sugere-se uma sua hierarquização, e apontam-se duas estratégia…

"Amigo não empata amigo, uma mão lava a outra" (e com a Geração Y lavará mais branco?)

Açoriano Oriental, 18/05/2013:

Na crónica anterior referi indicadores internacionais que reconhecem uma propensão portuguesa para a corrupção, ou para a complacência perante esta. Pelo que o combate à corrupção começará pela influência de uma minoria sobre a maioria dos portugueses, participando de uma nossa evolução cultural. Esta última ser-nos-á mais fácil se desenvolvermos comportamentos habituais, se estes forem alargados a outros campos… do que se saltarmos para comportamentos novos (sigo o modelo de evolução cultural que assumi no cap. 4 de Condições do Atraso do Povo Português). Ora aquela primeira alternativa parece facultada pela informação de 2009 reunida por Lourenço Xavier de Carvalho em “Dez Anos de Valores em Portugal” (in: A Urgência de Educar para Valores, disponível no Scribd). Nomeadamente, pela sobrevalorização da honestidade entre “valores pessoais associados a competências de caráter” (p. 57), que apenas (!) faltará alargar ao foro cívico e impessoal, onde aquele…

Da incineradora (e outras obras) – Duas formas válidas de argumentar disjuntivamente

Suponhamos que um pequeno conjunto de pessoas, mais ou menos conhecido, decide – por motivos que ficam à imaginação do leitor – convencer a restante população desta ilha que será bom construir aqui, digamos, uma incineradora de resíduos sólidos urbanos (poderíamos exemplificar com outros empreendimentos com impacto público). E que, para o efeito, um dos elementos desse conjunto vem a terreiro, digamos, numa sessão de esclarecimento na Lagoa, com argumentos como o seguinte:

Por um "silogismo disjuntivo"

Ou bem que construímos a incineradora (A) ou bem que não a construímos (B). Se a construirmos (A), então reduzimos o volume atual desses resíduos (A1), criamos dúzia e meia de postos de trabalho (A2)… e, last but not least, trazemos para a região (enfim, para algumas contas bancárias geridas por pessoas daquele conjunto, depois logo se vê) umas dezenas de milhões de euros da UE (An). Portanto – aceitando como evidente a bondade pelo menos de alguma consequência desta série – dev…