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Inovação, crescimento, e sociedade açoriana

As teorias do crescimento económico, depois de lhe reconhecerem como fatores o trabalho e o capital, também reconheceram como tais, de um lado, as inovações tecnocientíficas (R. Solow…), de gestão… e do outro, as instituições (ex. patentes, direitos de autor) que devem ser elas próprias inovadas de forma a promoverem e protegerem aquela outra inovação em geral (D. North…).
No contexto açoriano, este jornal – por cujo aniversário hoje estamos todos (mas primeiro os seus responsáveis e profissionais) de parabéns! – diversas vezes me abriu as suas páginas para abordar inovações tecnológicas, até científicas, e eventualmente institucionais, algumas das quais relevantíssimas para a economia e a sociedade desta ilha, e do arquipélago, outras que poderão ter tido aqui, ou talvez possam a vir ter, algum impacto positivo.
Foi o caso de “A modernização da indústria de laticínios em S. Miguel – 1937-1946” – se não me falha a memória, precisamente neste suplemento pelo aniversário de há dois anos (ou talvez eu tenha entregado para publicação um texto correlativo a esse). Onde apontei o complexo pessoal, social, económico e tecnológico que, naqueles anos, potenciou a fileira do leite tal como todos hoje a conhecemos.

Ainda sobre essa fileira, foi o caso da referência às ordenhas móveis e ao fio elétrico para demarcação de pastagens (“Da essência da tecnologia – um caso açoriano”, 2016), que – ao que sei – foram inovações tecnológicas criadas pelos açorianos, e não apenas importadas para este arquipélago.
Quanto à inovação científica, nesse caso um atualizadíssimo contributo micaelense para aquele que seria
então o mais importante processo científico em curso no mundo – o trabalho de Darwin sobre a evolução das espécies – uma pequena parte da obra de Francisco Arruda Furtado foi aqui abordada em (creio que agosto de) 2015, numa “Viagem aos primórdios do darwinismo social em Portugal”.
Para mais recentemente propor nestas páginas uma inovação agora sobre o modo institucional de se tomar decisões tecnológicas com impacto público, pela importação de um determinado processo, de origem dinamarquesa, de democracia deliberativa ou participativa (“Incineradora, participação pública, e hipótese de uma ‘conferência de consenso’”, 2017).
Basta uma pequena resenha como essa para sugerir quão a inovação tecnológica, científica e institucional tem sido implementada, ou proposta, nesta terra pelo menos desde o séc. XIX! Com os impactos que a referida teoria do crescimento económico permite compreender.
Hoje, porém, desafiado que fui para uma pequena reflexão sobre o tema, venho antes enfatizar a inovação nas nossas vidas quotidianas.
          Em linha com Norbert Alter, que define a inovação como a transformação de uma descoberta, seja de um produto, de um processo técnico, ou de relações sociais, profissionais, etc., em novas práticas.
De forma que a inovação se joga no quotidiano, nos comportamentos individuais desde os de uma professora aos de um operador de grua. Já a descoberta/invenção de um novo programa informático, de um novo processo cirúrgico… são apenas requisitos para as inovações que, depois, cada operador informático, cada médica… realizará se transformar aquelas descobertas/invenções em novas práticas.
Esse sociólogo francês segue o célebre economista austríaco Joseph Schumpeter, que distinguiu três passos no processo criador: o da invenção por indivíduos marginais; que são copiados quando surge a perspetiva de ganhos associados a essa novidade; a qual enfim é normalizada mediante uma sua institucionalização. Que será destruída por novas criações, etc.
Como Alter porém salienta, esse processo não é automático – ex. o uso da charrua de rodas foi lentamente estabelecido na Idade Média, pois ajustava-se preferencialmente a grandes campos abertos, cuja constituição era dificultada pela estrutura dos direitos de propriedade. São necessárias redes de influência que implementem esses processos desde a apresentação da invenção à normalização desta.
Redes que se constituem nas escolas, nas empresas, nos órgãos do Estado, na comunicação social… Nas quais, desde logo, os transgressores devem ser estimulados, protegidos, e atendidos. Não propriamente a transgressão que vise destruir todo o sistema social de inovação e produção, mas sim a que funciona nas suas margens: aproveitando o que nesse sistema facultará o desenvolvimento, e eventualmente a implementação da inovação.
Esses transgressores, indivíduos ou equipas, antes da eventual normalização das suas propostas trabalham quase clandestinamente. Mas o autor também reconhece que o seu trabalho requer alianças com quem lhes faculte as condições mínimas para esse último. Daí a necessidade de uma sua relativa proteção institucional.
A qual normalmente não se pode segurar se não em crenças e convicções – desenganem-se os gestores que recusam qualquer incerteza, e que pretendem lucros mas sem quaisquer riscos! Pois não existe processo, dedutivo e teórico ou indutivo e experimental, que garanta o sucesso futuro de algum novo produto, ou de alguma nova organização.
Assim, também alguma margem de fracasso tem que ser concedida aos mencionados transgressores. Tal como estes deverão saber integrá-lo.
Um pormaior final: quase contra as minhas formulações anteriores, não existem os inovadores ou transgressores, de um lado, e os normalizados ou institucionais, do outro. Inovação e normalização são antes atitudes que, cada um de nós, pode assumir nuns contextos, abandonar noutros e assumir a inversa, etc. É, portanto, no seio de cada pessoa que primeiramente se joga a inovação.
E nesse jogo, diria, nos realizamos precisamente como pessoas.
Mas essa não é já matéria para esta pequena reflexão sobre a inovação, mormente em tecnologia e ciência nas respetivas relações com a sociedade açoriana. Pelo que termino apresentando os meus votos para que, em particular, a AMISM considere seriamente inovar institucionalmente segundo o exemplo do Copenhagen Consensus Center*. E para que, em geral, as escolas, as empresas, as famílias (!) desta terra se constituam como redes de influência que facultem inovações como foram um dia as investigações de Arruda Furtado, a fábrica da Lacticínios Loreto, as ordenhas móveis e o fio elétrico.
Pois sem tais redes de influência – além do mais – não melhoraremos substancialmente as condições socioeconómicas de vida neste arquipélago.

in: Correio dos Açores, Edição especial 97º aniversário, "Inovação, ciência e tecnologia", 01/05/2017


* Este texto foi entregue a 25/04... antes de ler o C.A. desse dia!

AMISM adjudica construção da central de valorização energética e prepara concurso para construir 3 unidades de pré-tratamento

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