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'Condições do Atraso do Povo Português' - entrevista a 'Novos Livros'


1- De que trata este seu livro Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos?
R- Primeiro, e como infelizmente não é difícil, reconhece um crónico atraso sócio-económico de Portugal (pelo menos) desde o advento da economia industrializada, da urbanização da sociedade… por comparação aos nossos pares europeus. Segundo, equaciona esse problema radicalmente na nossa cultura, como base do estabelecimento e implementação das instituições sociais, políticas e económicas com as quais nos temos organizado. Terceiro, refuta empírica e logicamente o diagnóstico de Antero de Quental, uma vez deslocado dos séc. XVI-XIX para desde este último até à década passada (ou mesmo no período considerado pelo meu ilustre conterrâneo) – que as “causas” (“da decadência dos povos peninsulares”) seriam o catolicismo de Trento, um consequente autoritarismo político, e enfim uma cultura económica orientada para a conquista e não para a indústria e comércio. Quarto, para propor então uma hipótese alternativa, começa por esboçar um quadro de condições gerais do desenvolvimento – por indução a partir de alguns alargados estudos de casos. E avança uma verificação, em quinto lugar, da satisfação dessas condições por Portugal… isto é, de como não as temos satisfeito. De onde a hipótese: se nos fizermos evoluir culturalmente em ordem à satisfação dessas condições, é plausível que consolidemos condições de vida equiparáveis às da Irlanda, Bélgica, Áustria ou Finlândia. Enfim, correspondendo à questão prática que resulta do anterior argumento abdutivo, em último lugar o ensaio trata do modo como poderemos fazer evoluir a nossa cultura nessa direcção.

v. sinopse na página da editora
2- De forma resumida, qual a principal ideia que espera conseguir transmitir aos seus leitores?
R- Que não estamos condenados a compor o país da União Europeia com maior emigração (acima de 20% da população residente), onde dois milhões de reformados têm pensões inferiores a 400€… Ao contrário, sendo improvável uma rápida evolução cultural em bloco, é todavia plausível que uma minoria retoricamente capaz (se houver uma tal elite!) – grosso modo: credível, bem fundada empírica e racionalmente, empática, e com poder para difundir a sua mensagem – possa espoletar uma evolução da maioria a favor de um maior realismo, de uma temporalidade progressiva, e de algumas outras condições culturais do quadro acima mencionado. As quais facultarão instituições sociais, políticas… que enquadrem comportamentos cujos resultados constituam, enfim, um país onde a generalidade dos indivíduos tenha um lugar digno.

3- Ao ler o seu livro é impossível não pensar nas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, de Antero de Quental: principais diferenças e semelhanças entre essa época (anos 70 do século XIX) e os nossos dias?
R- A maior semelhança diria que é a série de, nuns casos, descendentes de personagens do amigo de Antero, Eça de Queirós, que ainda por aqui andam… noutros casos, são os próprios conselheiros Acácios, Dâmasos Salcedes e Jacobs Cohens! – o que não dá força àquela minha esperança numa verdadeira “elite”. Quanto às diferenças, sem prejuízo de outras, apontarei duas. O modelo teórico em cujo seio no séc. XIX se reconhecia, equacionava e tentava resolver tais problemas era inspirado no modelo determinista das ciências naturais – veja-se o uso por Antero do conceito de “causa” – mas presumindo um sentido na história humana (já na física clássica o tempo é reversível). Hoje, na base daquelas ciências, a física quântica considera o indeterminismo, e mesmo sobre uma determinação da mente pelo cérebro se fala de “emergência”, “causalidade descendente”… – daí eu ter recuado para o conceito mais humilde de “condição”. Creio que só quem se encapsular à margem dos argumentos que marcam a história das ideias insistirá em interpretações da realidade humana como as que pontuaram no séc. XIX. Termino com uma diferençazinha esperançosa (para os mais jovens, que a mim a idade já começa a trazer o cepticismo dos velhos): à data das Conferências Democráticas (onde Antero apresentou a sua tese), o país avançava denodadamente para a bancarrota de 1892 e para o descalabro político das primeiras décadas do séc. XX. Nesta nossa década, desde 2013 a dívida pública em percentagem do PIB deixou de crescer substancialmente, sugerindo um menor irrealismo do Estado português – se bem que em 2016 tenhamos feito isso batendo o record mínimo nacional, e neste ano também na UE, do investimento público, o que viola o princípio micro-económico de incentivos assumido no meu ensaio, diminuindo assim a progressividade da nossa economia e da temporalidade aí implicada… Mas, no seu conjunto, o país (famílias, empresas, Estado) enjeitou o irrealismo de se consumir hoje o que talvez se produza em algum futuro – veja-se a evolução da balança de pagamentos, que melhorou substancialmente em 2012 e se tornou levemente positiva a partir do ano seguinte. Enquanto o nosso PIB tem progredido firme ainda que humildemente após 2012. Mesmo que esta progressão possa depender bastante de factores externos no mercado do turismo (além da nossa competência endógena), e que o anterior realismo das contas nacionais possa ter-nos sido imposto por quem nos tem emprestado o dinheiro de que precisamos, fica a esperançazinha de que aproveitemos o balanço para integrarmos culturalmente os valores e princípios que esses comportamentos implicam. De modo que, uma vez ultrapassada essa imposição financeira e porventura alterados aqueles factores externos, não nos precipitemos de volta ao caminho de 1892, de 1977, 1983, e 2011.

v. original (aqui levemente retificado) in: Novos Livros, 05/06/2017

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