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Mensagens

A mostrar mensagens de Julho, 2017

Uma condição de qualquer política de crescimento (fev. 2013)

É sabido que alguns ministros da economia europeus, entre eles o português, pretendem promover o relançamento da Europa mediante uma sua reindustrialização. Mas importa saber o que se deva entender hoje por “indústria”. A 13 de Janeiro último o jornal Público interrogou algumas pessoas ligadas ao sector, acreditando o director-geral da COTEC Portugal, Daniel Bessa, em sintonia geral com os demais entrevistados, “sobretudo no que os alemães designam de ‘indústrias de engenharia’: indústria, talvez, suportada por doses maciças de investigação e desenvolvimento, e de engenharia – e em que o valor vem destes ‘serviços’, muito mais do que da manufactura propriamente dita”. Todavia Alberto Castro, director do Centro de Estudos de Gestão e Economia Aplicada da UCP, pergunta sobre o caso português: “Temos insuficiências. Baixas qualificações, ligações precárias entre a investigação e a aplicação, não sabemos desenhar os sistemas de incentivos. (…) Será um problema de cultura?” Julgo que sim …

Freud revisitado (jan. 2013)

No ano 2000 a dívida externa bruta portuguesa (sobre a qual se calculam os juros a pagar) montava a 123% do nosso PIB, e a líquida (o que devíamos menos o que nos deviam) a 40%. Em 2004, os valores percentuais eram respectivamente 165% e 63%. Para em 2010 esta dívida externa líquida ser já 108% do PIB, enquanto a dívida bruta chegava aos 229%. E não para se fazerem máquinas, mas sim estádios, viagens!… Perante dados como estes lembro-me das 4 páginas que compõem Formulações Sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental, publicado em 1911, e que há já meio século a Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud disponibilizou em português no seu vol. XII (online e gratuito no Scribd). Uma vez que não se encontra uma mente colectiva, que então tanto pudesse ser sã quanto doente, possivelmente estarei a dar um salto maior do que a perna. Mas também é um facto que o fundador da psicanálise iniciou esse artigo com a frase: “Há muito tempo observamos que tod…

Back to basics (jan. 2013)

Limpemos o pó às memórias do cálculo proposicional que os nossos professores do ensino secundário se terão esforçado por que aprendêssemos, e analisemos a seguinte argumentação: 1.Irrepreensivelmente – julgo eu – no programa RTP Notícias a 05/12/2012 (disponível online) António Borges insistiu que argumentemos na base do respeito pela realidade. Por exemplo, como para investir não podemos deixar de contar com capital, classificaremos como “real” a possibilidade de investir quando esse último estiver disponível, e como “irrealista” a pretensão de investir mesmo quando não houver capital. A primeira situação verifica-se quando o capital tiver sido acumulado, ou quando se encontram investidores que cobrem juros comportáveis pelo previsível retorno do investimento. A segunda verifica-se quando não ocorrer uma coisa nem a outra. Considerando que para crescermos precisamos de investir, mas que o Estado, as empresas e as famílias estão descapitalizadas, ficamos com a frase condicional: se não an…

Portugal e a actual fase da globalização (dez. 2012)

Entre a última década do séc. XV, e a primeira do séc. XVI, os vários blocos do globo foram reunidos num mesmo mundo pelas navegações portuguesas. As condições deste mundo globalizado vieram porém mudando: desde o mercantilismo (cada governo europeu protegia monopólios nacionais, subsidiava exportações e entravava importações) até à Revolução Industrial e ao comércio livre. Desde então, primeiro, numa colonização europeia dos territórios americano, africano, e parte do oriental, com apoio em navios e comboios a vapor, etc. Depois, num mundo enquadrado por organizações supranacionais, com o espaço e o tempo ainda mais comprimidos pelo avião, televisão… sob influência de empresas multinacionais. Até à actual fase que começou entre a última década do séc. XX e a primeira do séc. XXI. Encerrando o primeiro meio milénio da globalização, que teve o Ocidente como centro. Uma nova condição foi com efeito estabelecida entre 1991 – fim da URSS – e 2001 – adesão da China à Organização Mundial d…

Os agulheiros (dez. 2012)

Sobre a falência de Portugal, e dos países do sul da Europa, circulam dois tipos de explicação económica: ou gerimos os recursos de que dispusemos de forma diferente dos holandeses, checos… e obtivemos resultados correspondentemente diferentes; ou o sistema europeu está organizado de tal forma que nos atribuiu as funções de pedir e de comprar, e aos nórdicos as de emprestar e de vender. No primeiro caso a culpa é nossa, no segundo o sistema é que está desequilibrado. De qualquer uma destas explicações, porém, decorre que temos de mudar de práticas. Como dizem os lógicos, podemos pois eliminar aquela disjunção teórica, e concentrarmo-nos antes na questão sobre quem serão os candidatos naturais à implementação desta mudança. Mais a pequena questão decisiva sobre o que os poderá mobilizar contra práticas das quais muitos participaram, ou com que pelo menos pactuaram. É sabido que é mais fácil mudar as orientações ou as opiniões em relação às quais se tenha tido alguma reserva. Segundo o mo…

Os filhos das pessoas conhecidas

Contaram-me que o meu avô Eduardo, empresário da indústria de laticínios desta terra em meados do século passado, dizia: “Eu sei que tenho de arranjar empregos aos filhos das pessoas conhecidas. Mas eles, por amor de Deus, que não façam nada!” Assim não dou para o peditório, aberto nos últimos meses na imprensa nacional, a favor de não sei que esclarecimento dos empregos da família César. Dizem que a esposa do deputado Carlos César era funcionária da Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sendo nomeada coordenadora dos palácios da Presidência quando o marido presidiu ao seu primeiro governo regional? E novamente nomeada coordenadora da criação da Casa da Autonomia? Quando muito, faço votos que não tenha ponto a picar, e não abdique dos cafés a meio da manhã e a meio da tarde. Que a Dra. Rafaela Seabra Teixeira passou de funcionária da Câmara Municipal da Ribeira Grande a chefe de gabinete da secretária regional adjunta para os Assuntos da Presidência, não percebi se só depois de estabelece…

A “segunda era da máquina” e os açorianos (I)

Os jovens que hoje editam digitalmente apresentações de excursões e passeios por esta ilha não se lembram. Mas nós da geração acima temos ainda a imagem das estradas regionais, ao cair da tarde, cruzadas por homens a cavalo sobre albardas com uma ou duas bilhas de leite ao lado. Ou em carroças, quando o número das bilhas aumentava para três ou quatro. E por camiões-cisterna que transportavam para as fábricas o leite reunido nos postos espalhados pela ilha. Enquanto um pouco antes, à tarde como de manhãzinha, onde houvesse umas dezenas de vacas havia meia dúzia de trabalhadores a ordenhá-las. Depois vieram as ordenhas mecânicas, os jipes… E os ajuntamentos de trabalhadores passaram para as grandes obras, fossem públicas fossem prédios de apartamentos (além já dos serviços). A produção de leite até aumentara. Mas agora bastava um par de trabalhadores por lavoura comum. Em menos tempo do que dura a vida profissional de um homem, porém, ficaram construídos os portos e aeroportos, os hospita…