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Mensagens

A mostrar mensagens de Agosto, 2017

Os açorianos e a "segunda era da máquina" (II)

Na semana passada recebi uma série de notícias do atentado em Barcelona, enquanto não fazia ideia do que pudesse estar a acontecer ao meu vizinho. É mais um exemplo da nossa participação na “sociedade global” definida por Niklas Luhmann. Participação esta que nos sujeita a uma revolução que se poderá tornar maior do que qualquer outra já experimentada pela humanidade. A cumprir-se provavelmente no tempo de vida das gerações nascidas nas décadas de 80 ou de 90 do século passado, se não já durante a reforma das gerações de 60 ou de 70. Inteligência artificial – do desemprego… ao alerta de Hawking Designadamente, a passagem de uma sociedade conforme à produção mediante a operação de ferramentas e máquinas e até a programação destas últimas, para outra sociedade conforme a máquinas capazes de aprendizagem e de autoprogramação – v. “A ‘segunda era da máquina’ e os açorianos (I)”, que o leitor tem à distância de alguns toques no seu smartphone (e onde com um só toque pode abrir a obra em que B…

Para manter as liberdades do turismo

A primeira diferença que as low cost fizeram foi a de aumentar a liberdade de muita gente. Pois aumentou o leque de escolhas de ações que temos o poder de levar por diante. Assim, do lado de cá, já não é apenas a classe média alta que pode ir passar uma semana a Londres (depois de se juntar dinheiro para o alojamento), ou dar um pulo ao Dragão para ver um jogo do FCP. Do lado de lá, para uma família lisboeta que planeie a viagem com antecedência, vir passar uns dias a S. Miguel já não custa o triplo de os ir passar à capital inglesa. O que permite, de novo do lado de cá, a muitos jovens a escolha de não emigrarem para Inglaterra. E a bastantes dos respetivos pais a escolha de voltarem a trabalhar, depois da suspensão das grandes obras públicas e habitacionais, e do encerramento de tantas representações comerciais. Aqueles de nós que assumimos a liberdade como primeiro valor político sempre discordámos assim da sucessão de governos regionais e da república, ora do PS ora do PSD, que durant…

Novas conferências do Casino (set 2013)

No último 27 de Maio passaram-se 142 anos sobre a primeira conferência no Casino Lisbonense, na qual Antero de Quental – entre a quinta e a sexta bancarrota portuguesa após o oiro do Brasil – se propôs identificar umas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos. 141 Anos depois, em correlação a esse célebre texto – e só não em plena sétima bancarrota porque os nossos parceiros internacionais aceitaram tutelar-nos (como em 1977 e em 1983) – publiquei o ensaio Condições do Atraso do Povo Português nos Últimos Dois Séculos. Cujas pistas procurei explorar na presente coluna de opinião. Visto que a maior parte delas já foram aqui ao menos assinaladas, me parece estar em boa altura de agradecer ao Açoriano Oriental ter-me aberto a sua página de “Opinião” desde Dezembro de 2012, e de dar por terminada a minha participação nela. Não quero porém terminar sem apontar três ideias que pouco ou nada terei abordado, e que assim não terei oportunidade de desenvolver. Como …

Onde intervir, e com que referências? (ag 2013)

“Só com o aparecimento de um novo paradigma social, sólido e que dê confiança, é que começa a desenvolver-se um optimismo realista que leva as pessoas novamente a tornarem-se produtivas e a investirem, em suma, a dinamizarem novamente a economia interna.” Mas, “para levar as pessoas a agirem nestas situações [crises económicas], é necessário um sentimento de pessimismo generalizado, que leva as pessoas a compreenderem que é necessário fazer alguma coisa.” Enfim, “os mecanismos de mobilização são os mesmos que sempre existiram. Por um lado, que os movimentos sociais não sejam vistos como tendo algum interesse particular, ou interesse de ‘classe’. Por outro lado, que girem em torno de uma visão comum do que pretendem para o futuro. (…) É a visão de futuro partilhada em torno de uma causa comum que move as pessoas.” Segundo Miguel Pereira Lopes – na entrevista “Portugueses entre a revolução e o reformismo?” ao portal Verdade, Ética e Responsabilidade (30/10/2012) – para ultrapassarmos tã…

E depois das play-stations, das férias nas Caraíbas?… (julh 2013)

Quando é que acabam, e que âmbito alcançam, as crises (que começam por ser) económicas? Em 1873 deu-se o crash da bolsa de Viena. A crise financeira resultante foi rapidamente saneada, mas dela restou uma “recessão” (redução moderada da produção) económica mundial até 1896. As duríssimas condições de vida e de trabalho dos mineiros nesse período, mas também a disposição para lutar e trabalhar por melhores dias, foram ilustradas por Émile Zola em Germinal (1885). E o séc. XX começou com o reconhecimento dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, do lazer, a ascensão das classes médias… Embora entre tensões culturais e políticas mal enquadradas, que provavelmente alimentaram alguns dos incêndios das décadas seguintes. Em 1929 foi a vez da bolsa de Nova Iorque, de cujo crash resultou uma “depressão” (queda substancial da produção) económica mundial, provocando a miséria e o desenraizamento ilustrados por John Steinbeck em As Vinhas da Ira (1939). A geração apresentada neste romance havi…

Duas pernas pode ser mau, quatro pernas é pior (junh 2013)

O Triunfo dos Porcos, na Manor Farm, deveu-se a esses animais terem convencido os restantes a adoptarem a regra de que “Duas pernas é mau, quatro pernas é bom”. Pois assim estes outros abdicaram do que distingue os homens, nomeadamente o juízo crítico, enquanto os porcos, fazendo eles planos racionais (!), se assenhorearam da quinta. O resto veio por arrasto. No fim do célebre livro de George Orwell sabemos que o modelo se propagou a outras quintas. Uma delas, tenho a certeza, terá forma rectangular, com umas ilhotas em frente, e fica a sul da inglesa Manor Farm. Bem, “certeza” não posso ter… mas de outro modo não consigo perceber uma série de acontecimentos. Por exemplo: Durante umas décadas, tanto no seio do processo autoritário de tomada de decisões quanto no do democrático, foi aí praticamente unânime, e pacífica, a decisão de se construir um novo aeroporto a noroeste da capital. Por definição, um aeroporto é uma estrutura para aterragem e descolagem de aviões, normalmente dotada de…

Duas implicações dos 25 Anos de Portugal Europeu (junh 2013)

Analisemos o recente estudo com o título acima referido, coordenado por Augusto Mateus e editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (disponível em PDF). A avaliação global deste nosso quarto de século encontra-se no gráfico 29.1: contra a tradição, a partir de 1993 mais pessoas preferiram vir viver para Portugal do que as que preferiram sair, num saldo migratório positivo crescente até 2002; nesse ano a tendência inverteu-se, em 2010 a imigração já pouco ultrapassou a emigração… e as estimativas na página inicial da Pordata (também da FFMS) para estes dias em que escrevi esta crónica têm sido sempre negativas. Depois de 81 mil milhões de euros em fundos estruturais executados entre 1989 e 2011 (a preços deste último ano, op.cit. p. 24), é forte!             Importa reconhecer que aquela primeira avaliação positiva se justifica. Nomeadamente, por tudo o que é implicado pelo aumento da esperança média de vida (gráficos 44.4 e 44.5). O problema é que esta melhoria das condições de v…

Mateus 12, 48-50 (mai 2013)

Nas últimas duas crónicas reconheci sinais de que bastantes portugueses preferirão pactuar com a corrupção – e outros desvios morais – do que fragilizar quaisquer laços dos respectivos grupos sociais primários (ex. família), ou arriscar a imagem pública destes últimos. Uma ultrapassagem dessa posição jogar-se-á em duas dimensões éticas. Devendo ocorrer em três planos persuasivos as intervenções a seu favor. Numa destas dimensões éticas, essas pessoas parecem considerar moralmente apenas os seus vínculos aos respectivos grupos sociais primários, quando porém todo o país interfere nas suas vidas. Daqui a questão: como se poderá intervir para alargar os limites daqueles grupos ao país que, de facto, é relevante a cada um de nós? Na outra dimensão, esses desvios morais são facultados por uma hierarquia de valores que privilegia a solidez do grupo social primário. Questão: como se poderá induzir uma reclassificação dos valores na cultura portuguesa, subordinando essa segurança à honra e à ho…

Amigo não empata amigo, uma mão lava a outra… (mai 2013)

Na crónica anterior referi indicadores internacionais que reconhecem uma propensão portuguesa para a corrupção, ou para a complacência perante esta. Pelo que o combate à corrupção começará pela influência de uma minoria sobre a maioria dos portugueses, participando de uma nossa evolução cultural. Esta última ser-nos-á mais fácil se desenvolvermos comportamentos habituais, se estes forem alargados a outros campos… do que se saltarmos para comportamentos novos (sigo o modelo de evolução cultural que assumi no cap. 4 de Condições do Atraso do Povo Português). Ora aquela primeira alternativa parece facultada pela informação de 2009 reunida por Lourenço Xavier de Carvalho em “Dez Anos de Valores em Portugal” (in: A Urgência de Educar para Valores, disponível no Scribd). Nomeadamente, pela sobrevalorização da honestidade entre “valores pessoais associados a competências de carácter” (p. 57), que apenas (!) faltará alargar ao foro cívico e impessoal, onde aqueles indicadores da corrupção impli…

B. Português N. (mai 2013)

Philippe Riès (ex-chefe do departamento económico da France Press), num artigo online intitulado “Scandale bancaire portugais: les vacances à Rio de Dias Loureiro” (03/01/2013), concluiu “la politique professionnelle est bien, dans certaines «démocraties» européennes, le chemin le plus sûr vers l'enrichissement personnel rapide d'une classe d'aventuriers”. Numa inquirição que seria para rir, se não fosse para chorar (ou para confiscar?!), o referido ex-ministro e ex-conselheiro de Estado não pôde explicar a sua assinatura em movimentos de milhões de euros no BPN… por não se lembrar de pormenores. E voltou para casa nesse cândido esquecimento – que suspeito ter-se estendido a muitos gabinetes da nossa “sociedade dirigente”. Como aquele onde o Presidente da República terá falado à filha de uma aplicação de capitais na compra de acções de um banco gerido por gente amiga, que lhes prometia a recompra, passado um ano, a juros muito superiores aos normais no mercado financeiro. Te…

Valha-nos a memória de Pedro Nunes! (abr 2013)

Em A Aventura do Pensamento Europeu – Uma História das Ideias Ocidentais, Jacqueline Russ apontou apenas dois nomes portugueses: Vasco da Gama e Fernão de Magalhães – e não por ideias que tivessem desenvolvido, mas pelos dados que trouxeram às teorias de outros. Em particular, as bibliografias dos cursos superiores portugueses de filosofia esgotam-se em autores estrangeiros; tanto a Gradiva na sua edição da História Concisa das Matemáticas, quanto a Universidade Aberta no seu grande volume História da Matemática (escrita por vários autores portugueses), para mencionarem a contribuição portuguesa tiveram que a acrescentar em anexos, que nos corpos dos textos não mereceriam lugar (à excepção de Pedro Nunes no §8.9 dessa última obra); quanto à física, no índice remissivo do best-seller mundial Breve História do Tempo (1ª ed.) a expressão mais próxima que encontrei foi “Nuvens de Magalhães”… Em suma, se nomeadamente na história da globalização as intervenções portuguesas são incontornáveis,…

"A mais profunda essência do trabalho" (abr 2013)

“Diga, por favor, a importância que atribui a (…) trabalho”. Perante esta pergunta do Estudo Europeu de Valores, especialmente em 1999 e 2008 os portugueses responderam com um valor elevado (v. Portal da Opinião Pública). Pergunto-me porém qual das seguintes interpretações dessa pergunta terá feito a maioria dos inquiridos: i) que importância atribui ao trabalho como forma de realização e desenvolvimento de algumas das suas inteligências, emoções, competências físicas… na produção de uma obra? ii) Que importância atribui a um emprego que lhe garanta algum rendimento ao fim do mês? Pela primeira interpretação, o trabalho tem valor em si mesmo visto constituir-se como o processo pelo qual o homem se cumpre. Encontramos as raízes desta concepção nas passagens do Livro do Génesis que caracterizam Deus como criador, o homem como criatura à imagem Daquele, logo primeiramente também como criador, pelo que o trabalho é necessário à dignidade humana. Mas também encontramos tais raízes – embora c…

Instituições: sim; cultura: também (mar 2013)

A avaliar pela pequena parte que li, e pela sinopse de Porque as Nações Falham (2013), Daron Acemoglu e James Robinson propõem uma explicação simples para a questão expressa nesse título: a opção por instituições – i.e. regras formais ou informais, e organizações que as implementam – que favorecem oligarquias, em detrimento de instituições eminentemente inclusivas. Ou seja, neste momento em que constatamos o falhanço português relativamente a nações europeias equiparáveis, optemos por essas últimas instituições que os resultados logo aparecerão. Infelizmente, porém, a simplicidade que essa explicação aparenta – como logo acusou Jeffrey Sachs na revista Foreign Affairs (vol. 91 (2012) nº 5) – constituirá antes um simplismo. Nomeadamente ao se opor à tese weberiana de que o plano cultural condiciona o desempenho económico. Bem como ao reconhecimento, no Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento de 2013 (p. 66), de que “intangible factors (…) affect the organization of…

Mudança de mentalidade, ou apenas de políticas? (mar 2013)

Sobre a tese de que “é preciso mudar a mentalidade dos portugueses”, João César das Neves argumentou em "A evolução das mentalidades" (Diário de Notícias, 17/07/2006) que “este diagnóstico é falso”. Pois “Portugal foi grande no passado precisamente com o mesmo povo que hoje tem, e os períodos recentes de crescimento não exigiram outra mentalidade”. Julgo que esse argumento é inválido. Se fosse em geral – e não no passado, nem em conjunturas complexas e variáveis – que a grandeza de Portugal implicasse uma (constante) mentalidade portuguesa, obviamente não só esta última não teria de ser mudada para se alcançar a primeira, como isso seria o caminho para o desastre. Enquanto porém se não confirmar a tal mesmidade do povo português ao longo do tempo – sustentando que implementamos sempre, por exemplo, a iniciativa e a criatividade tecnológica do séc. XV… – mantém-se a hipótese de que as características mentais que, num dado período, tenham facultado a grandeza então verificada, e…

O exemplo aborígene (fev 2013)

Experimente o/a leitor/a pedir a alguns conhecidos seus que apontem, sem qualquer cálculo elaborado… para sudoeste. Se bastantes hesitarem não deverão porém ser julgados desorientados. Apenas quotidianamente não se orientam no espaço pelos pontos cardeais. Segundo as investigações de Lera Boroditsky, isso acontecerá porque nos habituamos a pensar no seio de uma linguagem pela qual os objectos são posicionados em relação uns aos outros – ex. …à direita de… – e não em relação àqueles pontos, como acontece com os aborígenes australianos. Dos quais qualquer criança consegue, sem hesitação, apontar para sudoeste. Como diz a autora (Scientific American, 304 (2011) 2: 44), “research in my lab and in many others has been uncovering how language shapes even the most fundamental dimensions of human experience: space, time, causality and relationships to others.” No que interessa a esta coluna de crónicas, há quinze dias referi o reconhecimento da temporalidade linear, aberta e progressiva com…