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Amigo não empata amigo, uma mão lava a outra… (mai 2013)

Na crónica anterior referi indicadores internacionais que reconhecem uma propensão portuguesa para a corrupção, ou para a complacência perante esta. Pelo que o combate à corrupção começará pela influência de uma minoria sobre a maioria dos portugueses, participando de uma nossa evolução cultural.
Esta última ser-nos-á mais fácil se desenvolvermos comportamentos habituais, se estes forem alargados a outros campos… do que se saltarmos para comportamentos novos (sigo o modelo de evolução cultural que assumi no cap. 4 de Condições do Atraso do Povo Português).
Ora aquela primeira alternativa parece facultada pela informação de 2009 reunida por Lourenço Xavier de Carvalho em “Dez Anos de Valores em Portugal” (in: A Urgência de Educar para Valores, disponível no Scribd). Nomeadamente, pela sobrevalorização da honestidade entre “valores pessoais associados a competências de carácter” (p. 57), que apenas (!) faltará alargar ao foro cívico e impessoal, onde aqueles indicadores da corrupção implicam que esse valor será deficitário.
Cabe então considerar os tipos de resistências que a maioria portuguesa oponha a tal alargamento, e implementar respostas adequadas.
Como a resistência à alteração de práticas corruptas, ainda que se as condene, por apreço aos respectivos resultados. Será o caso do facilitismo no enriquecimento que é facultado pela corrupção – versus a exigência imposta pela honestidade. Àqueles que têm sido complacentes com tais práticas por este tipo de resistências poder-se-á responder com os resultados desde a grande corrupção – em 2012, a parcela do BPN no défice orçamental foi quatro vezes e meia maior do que o défice do Serviço Nacional de Saúde!… – passando pela média corrupção – que faculta à filha de um governante um lugar numa empresa pública sem qualquer concurso, que ajeita o caderno de encargos de uma empreitada municipal à medida da empresa onde trabalha o marido da presidente da Câmara… – até à pequena corrupção – do defeito de que o fiscal recebe uma luva para se esquecer, das faltas no trabalho por falsos atestados médicos… Os complacentes facilmente reconhecerão que o barato desses facilitismos nos está a sair caro!
No entanto pode também erguer-se um outro tipo de resistências à mudança de práticas: o da própria opção por algumas destas, em si mesma (não pelos resultados de tais práticas), ter consequências favoráveis ao sujeito. Por exemplo, a identidade e pertença social de quem se mantém integrado em grupos primários ainda que desagradado pela corrupção destes – versus a solidão de quem se exclui desses grupos. Afinal Xavier de Carvalho (p. 55) também apurou que o primeiro “objectivo de vida” da maioria dos portugueses é “ter uma família sólida” – “ser honrado” vem em 4º lugar.
           Com esta hierarquia, em caso de um membro da família se revelar corrupto (ou pedófilo, etc.), entre a honestidade da condenação e a solidariedade para com as vítimas, de um lado, e o silenciamento do que possa fragmentar a família, ou enfraquecer o respectivo estatuto social, do outro lado, a maioria dos portugueses optará por este silenciamento. E o mesmo provavelmente valerá para quaisquer grupos sociais primários além da família. A estas outras resistências, que respostas se poderão avançar?
Dir-se-á que a honra, a honestidade, implicam que nos disponhamos em ordem a algo que ultrapassa o que nos é mais imediato… Sim, mas concretamente o quê? E como se poderá sugeri-lo com eficácia?

Versão original in: Açoriano Oriental, 15/05/2013

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