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B. Português N. (mai 2013)

Philippe Riès (ex-chefe do departamento económico da France Press), num artigo online intitulado “Scandale bancaire portugais: les vacances à Rio de Dias Loureiro” (03/01/2013), concluiu “la politique professionnelle est bien, dans certaines «démocraties» européennes, le chemin le plus sûr vers l'enrichissement personnel rapide d'une classe d'aventuriers”.
Numa inquirição que seria para rir, se não fosse para chorar (ou para confiscar?!), o referido ex-ministro e ex-conselheiro de Estado não pôde explicar a sua assinatura em movimentos de milhões de euros no BPN… por não se lembrar de pormenores. E voltou para casa nesse cândido esquecimento – que suspeito ter-se estendido a muitos gabinetes da nossa “sociedade dirigente”.
Como aquele onde o Presidente da República terá falado à filha de uma aplicação de capitais na compra de acções de um banco gerido por gente amiga, que lhes prometia a recompra, passado um ano, a juros muito superiores aos normais no mercado financeiro. Terá tido então, o ex-professor de economia, a arte de se esquecer de perguntar aos amigos que árvore das patacas teriam eles no quintal desse banco para poderem pagar tais juros.
E esta, me parece, terá sido a arte que eles (amigos) por sua vez terão desenvolvido acima da Dona Branca: a da distribuição de suculentos queijinhos por diversos “portugueses de categoria” que pudessem decidir fazer aquela pergunta, para que estes, precisamente, se esquecessem dela.
Os arguidos do caso BPN constituirão assim a ponta de um iceberg. Até porque não apenas essa dúzia e meia de sujeitos foi promovida por bastantes outros, como ainda estes últimos foram sufragados eleitoralmente.
Não admira, pois, que no Corruption Perception Index 2012, de entre os quinze países que constituíram a UE, abaixo de nós só a Itália (da máfia, do Berlusconi…) e a Grécia (…de tudo!). Precisamente o mesmo trio a contar do fim quer no indicador da democraticidade, quer no da corrupção, do World Audit desse ano.
As consequências sociais, económicas… desta situação são conhecidas. Como se poderá corrigi-la?
Ainda na web, em “Why anticorruption reforms fail – Systemic corruption as a collective action problem” (Governance, 24 (4) 2012), A. Persson, B. Rothstein e J. Teorell constatam a falha do combate à corrupção sistémica (que não de todas as pessoas nos países que a verificam!) mediante o reforço da fiscalização dos níveis organizacionais intermédios e inferiores pelos superiores.
           Explicam essa falha pela falsidade da presunção de que a maioria dos elementos destes últimos níveis organizacionais se compromete com o bem público. Quando, nesses países, o rendimento das práticas corruptas ultrapassa em regra o das honestas. E ultrapassa-as tanto mais quanto mais elevado for o nível organizacional do agente.
           Portanto as únicas respostas consistentes em que se pode, legitimamente, ter esperança são constituídas por processos de evolução cultural que desenvolvam a consciência de cidadania da maioria da população. Com a fiscalização a exercer-se cruzadamente, e não apenas de cima para baixo.
            Voltando à “política profissional em certas «democracias» europeias”, só mediante uma tal evolução é que estas centenárias palavras de Fialho de Almeida (in: Literatura Gagá) deixarão, enfim, de poder ser verdadeiras: “Em Lisboa a sociedade dirigente é uma sociedade de conselheiros, de inspectores, de pares do reino e de cabrões. Todo o português de categoria é alguma coisa destas”.

Versão original in: Açoriano Oriental, 01/05/2013

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