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Mateus 12, 48-50 (mai 2013)

            Nas últimas duas crónicas reconheci sinais de que bastantes portugueses preferirão pactuar com a corrupção – e outros desvios morais – do que fragilizar quaisquer laços dos respectivos grupos sociais primários (ex. família), ou arriscar a imagem pública destes últimos. Uma ultrapassagem dessa posição jogar-se-á em duas dimensões éticas. Devendo ocorrer em três planos persuasivos as intervenções a seu favor.
Numa destas dimensões éticas, essas pessoas parecem considerar moralmente apenas os seus vínculos aos respectivos grupos sociais primários, quando porém todo o país interfere nas suas vidas. Daqui a questão: como se poderá intervir para alargar os limites daqueles grupos ao país que, de facto, é relevante a cada um de nós?
Na outra dimensão, esses desvios morais são facultados por uma hierarquia de valores que privilegia a solidez do grupo social primário. Questão: como se poderá induzir uma reclassificação dos valores na cultura portuguesa, subordinando essa segurança à honra e à honestidade?
Quanto ao alargamento da comunidade moral, é possível que o confronto entre as expectativas associadas àqueles pactos, e os maus resultados obtidos – na grande e média corrupção que há quinze dias aqui assinalei – induza essas pessoas à ponderação dos ganhos e perdas dessa sua escolha tradicional.
Passarão a implementar assim o que, desde A Origem do Homem publicado por Darwin em 1871, tem sido reconhecido como a vivência moral distintiva dos seres humanos: o juízo moral. Ou seja, ao exercitarem esta ponderação estarão a ultrapassar os instintos morais que partilhamos com os restantes mamíferos, habilitando-se pois às obras sociais que apenas as comunidades humanas têm logrado. Nomeadamente, os bons resultados que outros países têm obtido nos indicadores mencionados.
A convocação para essa ponderação de ganhos e perdas faz activar o plano persuasivo da racionalidade. A qual também facilmente evidenciará a conveniência de se organizar e se orientar a vivência familiar, a coesão social… em função da honestidade, etc. Nesta dimensão da hierarquia dos valores, porém, as intervenções culturais deverão cuidar especialmente dos restantes planos persuasivos.
Destaquei a honestidade pois, segundo um dos indicadores mencionados naquelas crónicas anteriores, este valor é já muito considerado pela maioria dos portugueses – ainda que por enquanto a aplicar apenas a pessoas isoladas. Estimular as emoções que favoreçam, de um lado, o respeito pela verdade, e, de outro lado, o respeito pelos restantes seres humanos, será pois uma estratégia retórica que contará à partida com algum bom acolhimento.
E assim se activará o plano persuasivo da emocionalidade – nuclear na decisão de se pôr em prática qualquer sugestão retórica, como esta de uma reordenação da tradicional hierarquia portuguesa de valores.
No plano persuasivo da credibilidade, enfim, um exemplo de intervenção retoricamente potente, dada a importância da Igreja católica na nossa tradição cultural, será a invocação do exemplo dos papas Bento XVI e Francisco em relação aos sacerdotes e leigos que encobriram denúncias de pedofilia em nome da coesão e da reputação da Igreja – posição que se perspectiva ser alargada aos desvios morais no banco do Vaticano, etc. Sob a credibilização última da passagem bíblica referida no título: “Quem é Minha mãe e quem são os Meus irmãos? (…) todo aquele que fizer a vontade de Meu Pai que está nos céus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe”.


Versão original in: Açoriano Oriental, 29/05/2013

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