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Valha-nos a memória de Pedro Nunes! (abr 2013)

Em A Aventura do Pensamento Europeu – Uma História das Ideias Ocidentais, Jacqueline Russ apontou apenas dois nomes portugueses: Vasco da Gama e Fernão de Magalhães – e não por ideias que tivessem desenvolvido, mas pelos dados que trouxeram às teorias de outros.
Em particular, as bibliografias dos cursos superiores portugueses de filosofia esgotam-se em autores estrangeiros; tanto a Gradiva na sua edição da História Concisa das Matemáticas, quanto a Universidade Aberta no seu grande volume História da Matemática (escrita por vários autores portugueses), para mencionarem a contribuição portuguesa tiveram que a acrescentar em anexos, que nos corpos dos textos não mereceriam lugar (à excepção de Pedro Nunes no §8.9 dessa última obra); quanto à física, no índice remissivo do best-seller mundial Breve História do Tempo (1ª ed.) a expressão mais próxima que encontrei foi “Nuvens de Magalhães”…
Em suma, se nomeadamente na história da globalização as intervenções portuguesas são incontornáveis, na história das ideias afiguram-se irrelevantes. E não será pela nossa pequena dimensão, que não só esta foi suficiente para os Descobrimentos, como nas disciplinas teóricas e nas artes se encontram autores de países dessa dimensão.
Em plena economia do conhecimento, esta nossa aparente desvalorização do trabalho teórico arrisca-se a constituir-se como um tiro não num pé… mas nos dois.
Com efeito, o Manual Frascati da OCDE distingue três tipos de investigação: básica, aplicada e experimental. A primeira é economicamente desinteressada, e visa noções e problemas gerais. A segunda é ainda desinteressada, mas desenvolve temas particulares. Só a terceira tem desde o início uma intenção económica.
Ora, para um país africano, do sudoeste asiático… será hoje mais económico apostar neste último tipo de investigação, copiando e porventura desenvolvendo as teorias alheias. Mas para quaisquer países que se proponham já aproximar-se dos níveis superiores de desenvolvimento, e, principalmente, aí se fixarem, os primeiros tipos revelam-se indispensáveis. Porque grande parte da inovação tecnológica – passível de patenteação! – tem decorrido, de forma inesperada e impossível de planeamento, da investigação desinteressada – ex. a penicilina, a WWW, a moderna criptografia, a supercondutividade… E porque profissionais com uma forte preparação teórica tendem a trabalhar mais facilmente com tecnologia avançada do que pessoas que a não compreendem.
            Esta última questão remete-nos para a empregabilidade. A qual dispensava o conhecimento teórico fundamental quando se podia preparar um quadro superior ou intermédio para a função que, nas décadas seguintes, desempenharia. Ao contrário, em percursos profissionais possivelmente compostos por saltos entre funções laborais distintas, quando as metodologias de uma mesma profissão mudam substancial e rapidamente por razões tecnológicas, e com a comunicação no seio de equipas multidisciplinares a exigir uma base transversal às diversas especializações, o conhecimento e as faculdades mentais teóricas são frequentemente condição do sucesso profissional.
            Hoje, mais do que nunca, é a prática que exige a valorização da teoria.
A qual (teoria) – e fechando assim esta crónica onde a começámos – nos expõe o Ocidente que como derivado basicamente das culturas greco-latina e judaico-cristã. Ambas valorizaram a compreensão da realidade, a verdade, por si mesma e não apenas em função de quaisquer aplicações práticas. Antes de quaisquer destas, portanto, é da nossa identificação como ocidentais, ou não, que trataremos ao escolher se alteraremos, ou não, essa tradicional desvalorização do trabalho teórico.

Versão original in: Açoriano Oriental, 17/04/2013

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